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sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O pensamento

 christian schloe
O pensamento evade-se numa chama volátil de impermanência.
Nem os caracóis resistem a este voo alado
que penetra na floresta dos sentidos.
Na poeira lê-se o tempo que corre parado na exatidão do espaço
que espera algures, em lugar nenhum.

A respiração atravessa as folhas e os pulmões das pedras,
no musgo rarefeito
Os raios aquecem os néctares que pernoitam nos lábios
de todas as paisagens
A luminosidade vagueia plana no coração da Terra
anunciando a alegria de estrelas azuis
Nos ninhos aquecidos de peitos maternos,
dormem ondas de amor nas marés do coração.


Porque não sorris com a translúcida cor dos olhos dos lírios?
Arruma as angústias,
sacode a poeira que embacia o teu Agora.
Há muito tempo que o sorriso é a muralha
que guarda a fortaleza no poema da tua alma.

Manuela Barroso, in "Eu Poético VI"


domingo, 12 de novembro de 2017

Adormeço

Vladimir Kush


Adormeço entre a folha e o tronco rugoso, 
numa sonolência confusa
onde o rumor de uma sombra absurda e imperceptível,
se levanta com o pensamento do vento.

Ouço a lembrança das horas líquidas, suaves e longas ,
estendidas no arvoredo da colina densa,
na saudade plangente do sino perdido na Torre imensa.
Ouço o abandono do silêncio vazio
na escuridão surda da Noite
que cresce com o abandono alheado da lua,
na cegueira das nuvens revoltas
desenhadas na terra nua.
Ouço os sons longínquos que dormem,
nos fumos  crescentes do inconsciente.
Ouço vozes  plangentes de água
que florescem em cataratas luminosas,
na penumbra silenciosa da saudade.

E o sussurro penetra o jardim
com a música das flores
em sonhos de primavera,
 grávidos de esperança e de mim.

Os zumbidos das hélices de insetos
entardecem a solidão no sopro impercetível
do baile suave das borboletas.
Estranho som neste silêncio,
estranha ilusão
que desce
que dorme em flores
na minha mão.

No horizonte deita-se o fim do dia,
com a canção da torre, morna saudação a Maria.
As badaladas diluídas do sino,
são hoje as recordações perfumadas da minha noite.
Sinfonia do Universo

 tocada na catedral de mim, como um Hino.

 Manuela Barroso , 2011



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Se



Se me perguntas porque o silêncio é  o meu ouvido
e o cantar do bosque é também, minha paixão
e o ruído das nascentes é  bálsamo que me embala
e a verdura dos fetos é  linguagem que me fala…

…dir-te-ei que a altura do cimento
a acidez da gasolina
a solidão em crescimento
a corrida vespertina…

…tiram-me a liberdade de correr
atrás das borboletas ainda
ter na alma o mundo todo
como quando era menina!


Manuela Barroso

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Divagando








O sol já deita os olhos nas colinas que eu abraço...

...e a luz vai baixando oblíqua...num cansaço, num azul de céu transparente e doce que cobre a terra aqui , vestida de verde paz!
...e dos braços das árvores que abraçam o meu jardim, desprende-se uma e outra folha que baloiça graciosamente, pousando no chão, aconchegando-se placidamente a outras folhas irmãs...
Na melancolia deste tempo que cai, há uma metamorfose de vida com miscelânea de cores intemporais...
E tu, relva minha e meu regaço, tão sequiosa no verão, abandonas o teu ritmo mas não a tua vida! Cresces com passos lentos guardando em ti os segredos que te penetram...

...E a consciência do tempo levou as minhas andorinhas e com elas toda a sinfonia dos melros, piscos e tentilhões!
...fico aqui à vossa espera e quero não vos dizer adeus!
...e olho para o vazio do azul e vejo as nuvens patinando em ondas caprichosas que deslizam suavemente pelo ar!

Tudo é harmonia!
Tudo está no seu tempo!
Tudo está no seu momento!
Tudo é igual e diferente cada dia!

Manuela Barroso 


(Reeditado- Outubro de 2010)


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Paro.


 pino daeni
...

Paro.
Sinto agora que me falas no balancear das folhas 
ainda aqui verdes, que plantaste para mim. 
E através delas, tudo me balbucia da Unicidade de 
que sou parte. E deste monólogo que só esta folha 
branca aceita, de novo paro e olho através da vidraça. 
E sorrio: pelo sol meigo que beija os meus olhos, 
pela dança das folhas que fazem sorrir a minha alma, 
pelo azul, tão azul com que vestes o meu sorriso.
E decidi que hoje será mais um dia de festa, 
que eu, nesta ignorância de ti, não sabia que era 
a surpresa que me reservavas.


        Manuela Barroso