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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pega em mim


 nelly tsenova

Pega em mim
e desloca-me entre o toucado de acentos
e a melodia das sílabas.
Ajuda a deslizar esta brancura vazia
na imagem ténue
que se enrola na palavra.

Atei a _ o _ fogo nestes fios
que vão acordando num despertar lento
e soletra o sussurro
nos subúrbios do poema.

Manuela Barroso


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Acompanhaste


Acompanhaste, amado, os passos peregrinos
à procura de nada?corri veredas entre muros,
estalando nos contrafortes de musgo sepultado
nos anos, morrendo de tempo. penetrei nos
córregos entre o silvado procurando as amoras
da vida. só encontrei sal nos picos dos valados
íngremes, escorregadios. atravessei a simplicidade
do monte e dormi na clareira roxa de violetas.

no êxtase do perfume, sentei o pensamento
no joelho das pedras e adormeci no regaço
do tempo. não havia mundo, só o aroma roxo
era a plenitude na fugacidade da existência.
não havia ruído. o aroma roxo era agora a
música dos sentidos. a luz  era o segredo
roxo nas  violetas dos teus olhos, amado,
 preenchendo a fome da cor.

 e tudo ficou mais negro com esta humanidade
descolorida, sem norte. amor

orfã de mim, procuro o tempo que  existe no vazio.
só ele preenche a minha sede neste mundo egoísta,  frio.

Manuela Barroso, “ Eu Poético”


sábado, 12 de agosto de 2017

Quando


 christian shole
 Quando eu for um sonho de flores transparentes
no cais da minha madrugada,
arrasta-me na sombra das tuas águas
para um porto florido
no infinito das minhas noites.

Quero ser o vitral que emoldura
os meus tédios,
na verticalidade das suas misteriosas cores,
transportando o seu estranho vulto,
numa consciência ausente
onde murcham os jardins,
como uma floresta de silêncios.
E abrir-se-á uma porta por onde entram brisas
que se escondem de mim,
perfumando o salão da minha alma,
como grinaldas de primavera;
entoarão alegrias orvalhadas,
num cortejo de violinos,
tecido pelos teus dedos.
E o teu vulto circunspeto,
distante,
amorfo
e frio,
permanece imóvel,
em lábios húmidos
que procuram a sedução
no silêncio das horas da tarde,
que vão descendo em cortejo luminoso,
de inquietantes intensidades de entardeceres.

Serei para sempre
o pórtico de uma metáfora,
escrita no inconsciente de uma alma,
sedenta de sorrisos de estrelas,
em cortinados de tédios,
no claustro da minha noite.

Assomarei  no nevoeiro incógnito,
atravessando o cetim das tardes,
com sabor a noite,
na saudade do infinito!

Manuela Barroso, in “Inquietudes”, 2012-Edium Editores




domingo, 30 de julho de 2017

Tenho



 Tenho pombas no peito
ansiosas por voltar ao ninho.
Arrulham segredos que a alma sente.
 Abro-lhes o postigo,
rasgo o véu que nos separa
e, na liberdade do voo,
serei a presa nas suas asas.

O Vazio é o meu espaço.


Manuela Barroso


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Se


 christian sholoe

Se não te ouvisse
os corais não falavam das cores
que migram na tatuagem dos segredos

Se não te ouvisse
o nevoeiro não exalava a voz
no gemido da cegueira
dos rebentos por nascer.

Escutando,
falo com os corais que não vejo
e os segredos que esqueci.
Por entre a neblina
escuto o cheiro das roseiras
grávidas de flores e espinhos.

Agora
deixa-me escutar o cheiro das magnólias
no artificio das flores brancas
no bocejo da primavera.

Manuela Barroso