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terça-feira, 27 de junho de 2017

Mãe

Mãe

 Branco está meu pensamento.

Escorrego nas margens do dia,
divagando à tua procura e ainda
há pouco tua luz se acendia
O teu perfume trouxe- me aqui,
a este pedaço de chão onde nasci.
O teu caminho foi peregrinação da Cruz
que erguias cada dia na oração, e inquietação
de quem sente que há outro lugar, outra luz.
 
 Mas branco…branco é meu pensamento.

Na orfandade que ficou  
levaste meu pensamento com o 
vento que te levou;
Contigo, voou também a minha infância
a lembrança das tuas mãos, minha voz
e inocência de criança.

Agora é a noite que me vigia
a  solidão que me aconselha.
e o teu leme que me guia.

Branco ficou meu pensamento

Dorme, Mãe!
Mas enquanto eu na terra caminhar
dá-me  de ti, a tua luz
refresca-me os pés
como a mãe de Jesus o fez ao pé da cruz.

23 de junho, 2017



terça-feira, 13 de junho de 2017

Nesta noite



Nesta noite com medo das estrelas
onde o vento insiste calar minha voz
penetro a bruma tentando mantê-las
no meu quarto quando falo contigo a sós.

Tento decifrar esta  ventania
através da janela que olha para mim
deixando escorrer as gotas vadias
que caem nos meus olhos e me falam assim:

Sou pinga de água doce, insípida
arrastada pela aragem vagabunda
mas quando em descanso me torno mais límpida.

Não procures o brilho nem a  vã loucura
da luz que ilumina mas logo se afunda                  
no pó  dos hipócritas... lama insegura.


Manuela Barroso, "Eu Poético"





terça-feira, 30 de maio de 2017

Nos lábios


Garmash
  
 Nos lábios das flores sinto o veludo das pétalas
na  cor labareda do laranja do sol poente
girassóis de fome e de fogo em pele ardente

Na penumbra da tarde passeiam aromas de delírios
em nocturnos segredos e ondas de loucura tardia
na música do teu corpo feito melodia

E nesta harpa em acordes musicais de fantasia
a noite cai e dorme na tua boca
São gotas de orvalho, na madrugada vazia

Poeira de sonhos amantes
luz fugidia
sombras distantes.


Manuela Barroso

terça-feira, 23 de maio de 2017

Quando...


 
 Quando eu for um sonho de flores transparentes
no cais da minha madrugada,
arrasta-me na sombra das tuas águas
para um porto florido
no infinito das minhas noites.
Quero ser o vitral que emoldura os meus tédios,
na verticalidade das suas misteriosas cores,
transportando o seu estranho vulto,
numa consciência ausente
onde murcham os jardins,
como uma floresta de silêncios.
E abrir-se-á uma porta por onde entram brisas
que se escondem de mim,
perfumando o salão da minha alma,
como grinaldas de primavera,
entoando alegrias orvalhadas,
num cortejo de violinos,
tecido pelos teus dedos.

E o teu vulto circunspecto,
distante,
amorfo
e frio,
permanece imóvel,
em lábios húmidos
que procuram a sedução
no silêncio das horas da tarde,
que vão descendo em cortejo luminoso,
de inquietantes intensidades de entardeceres.

Serei para sempre
o pórtico de uma metáfora,
escrita no inconsciente de uma alma
sedenta de sorrisos de estrelas,
em cortinados de tédios,
no claustro da minha noite,
que assoma no nevoeiro incógnito,
atravessando o cetim das tardes,
com sabor a noite, na saudade do infinito!

Manuela Barroso, "Inquietudes"- Edium Editores
Tela- Daria Petrilli



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Noite





Escondes no teu silêncio
o frio da escuridão que se
dispersa numa aragem erguida
nos braços da incerteza.
Trazes a chama da saudade
escrita nos olhos da lua
e unes a Terra e o Mar
numa Fusão eterna de Mistério
escondendo-se na espuma do tempo.
És o espelho da Solidão,
a única música que se ouve
na profundidade da tua memória
e onde eu queria divagar.
Entrego-te a harpa deste
Silêncio que guardo como
um sonho que dorme,
inacabado, cansado em meu peito.
Abandono-me  na tua carícia serena
onde a Paz é o Sono que me acorda.
És a fonte que gorgoleja, 
a sombra que refresca o verão quente
das minhas tardes.

E na floresta das tuas sombras,
vibram as imagens do passado,
escritas na saudade errante
que vagueia dentro de mim.


Manuela Barroso, in “Inquietudes”- Edium Editores 2012